Base do Baú – “Di Melo” (1975)

23 Abr
Roberto Melo

Roberto Melo

Não é de hoje que Pernambuco colabora com a qualidade da música brasileira. Em 1975, Di Melo lançava seu disco mostrando para o Brasil que o swing não ficava só no eixo Rio – São Paulo. Seguidor de Tim Maia e contemporâneo de Cassiano e Hyldon, só não ganhou mais destaque porque naquela época só a música de protesto tinha espaço. Curioso como hoje música de protesto é considerada música de bandido, mas isso é outro assunto.

Di Melo” se tornou um álbum conhecido graças aos DJ que ficavam com os dedos grossos nos sebos em busca de raridade. Paulão, Niggas (que escreveu sobre o disco aqui) e Samuca foram alguns desses arqueólogos do vinil.

O disco abre pegando pesado na balada. “Kilariô” vem cheia de balanço e com baixo e metais destruindo tudo. “A Vida em Seus Métodos diz Calma” é um de seus hits, swing com uma letra que mistura humor e critica ao desespero. Aliás a critica existia muito na música de Di Melo, mas não ficava só no discurso “caminhando e cantando”. Falava dos problemas do ser humano comum. Mas ele não era filho de sociólogo e não fazia parte da máfia do dendê.

De volta ao chiado do vinil, “Aceito tudo” é o desabafo de quem chega na cidade grande, isso nos anos 70. Em um verdadeiro desabafo, o mestre diz:

“Ganho um solo ganho um colo só não quero ganhar cruz da escravidão

Do outro lado de tudo a matemática do absurdo

Não me troco por ninguém tenho honestidade não sou cabeçudo

Tenho a meia tenho a ceia e de melhor a alegria

Cresci sem nada e sem conhecer com muito trabalho aprendi a ler

Não conheci o meu avô nem o que foi nem onde andou

Só sei que a vida ou o mundo foi quem me desafiou”

Sob a influencia do tango vem “Conformópolis”, com uma letra poderosa de Waldir Wanderley da Fonseca. Em “Má-lida”, Di Melo diminui o ritmo mas não a lamentação. A faixa lembra muito o que seus conterrâneos faziam naquela época.”Sementes” é a mais tango de todas.

Entra “Pernalonga”, e o pernambucano volta ao groove – ainda bem. “Minha estrela” lembra um pouco a levada de “Kilariô”. “Se o mundo acabasse em mel”: só pelo titulo já vale. De quebra é uma canção repleta de frases fortes, como “Entrou em choque publicitário” – nada mais atual. “Alma gêmea” é aquele momento de lamentação e solidão, assim como o sambinha “João”. O disco fecha com “Indecisão”, “Tudo isso é pra quem pode/ nunca foi, nunca é pra quem quer/ tem gente que nasce pra ter/ e tem gente que vem pra cantar”, diz a letra.

Di Melo ainda está na ativa, assinando com o nome Roberto Melo.

E ninguém faz nada.

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