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Base do Baú – “Cheiro Verde” (1977)

4 Ago

Danilo Candido Tostes Caymmi

Danilo Candido Tostes Caymmi

Danilo Caymmi foi o assunto da semana para a Revista da Hora, e bateu a saudade de fazer um Base do Baú, então…

Como deve ser filho de Dorival Caymmi? Nem imagino, sou filho do grande Manoel Lopes de Carvalho. Agora, como deve ser filho de alguém que escreveu “A Vizinha do Lado”? Bem, Danilo Caymmi sabe perfeitamente o que é ser. Porém, seu mérito não está no sobrenome, está no fato de ser quem é.

Ele tem no maestro maior Tom Jobim sua principal influência, tem no sangue toda linhagem Caymmi. Danilo poderia muito bem seguir o caminho natural das coisas, mas foi resolveu buscar sua sonoridade nas Minas Gerais. Deixando o Rio e a Bahia para quem narrou com perfeição, no caso Jobim e Dorival. O resultado dessa busca fica claro em seu disco “Cheiro Verde”.

Jazz com forte sotaque mineiro – principalmente nas cordas. Canções como “Lua do Meio-Dia” tem até a participação de Milton Nascimento, é o reflexo de sua maior influência nesse período, todo o pessoal do Clube da Esquina. “Aperta Outro” é o retrato exato de como essa segunda geração via a construção de suas obras. Eles estavam fazendo a MPB no exato formato que é feito hoje. Exatamente 30 anos depois. Ainda bem que alguém bebeu a mesma garrafa de ‘uísque’ com Tom Jobim.

Em “Racha Cartola” ele convida um tal de “Nelson” pra chegar na mesa. Em 77 o pop brasileiro era a Bossa Nova.

Base do Baú – “Marku” (1973)

22 Maio
Marco Antonio Ribas

Marco Antonio Ribas

Tudo bem que Gilberto Gil é dono de imensa musicalidade. Na mesma proporção, Marku Ribas possui a voz mais suingada do mundo. Em 1973, ele lançou “Marku”, disco afro até a raiz, em que, de quebra, consegue brincar com sua voz com uma naturalidade conquistada por poucos, pelo menos com tal maestria. Pouca gente sabe, mas existe uma versão idêntica desse disco, que recebeu o nome “Underground”. Deve ser algum relançamento. Como colecionador de vinis, eu só conhecia a versão que levava o primeiro título.

Agora o roteiro da obra (viagem ao amor de ser descendente africano)

“Zamba Ben” entra pra abrir a pista e já levar todo mundo para dançar. A letra minimalista só comprova a certeza de que a voz, para Marku Ribas, é um instrumento musical do qual ele possui completo domínio (assim como Pepeu Gomes usa sua guitarra).  “5-30 Schoelcher” começa de forma clássica. Na época, era comum manter o patrão do mercado fonográfico, mas do meio para o fim, o que poderia ser mais uma interpretação da MPB ganha vida, com entrada da batida afro. Daí para a frente, esquece, Ribas quebra tudo.

“O adeus, segundo Maria” é a melhor amostra de que o samba é negro, do morro ou de qualquer lugar. A interpretação segue a linha de Simonal, mas não é difícil perceber uma certa influência no modo de cantar de Nelson Gonçalves. Será que Marku o ouvia nas radios, quando menino? Já “N´biri N´biri” é um black-bolero-afro.  E, em “Porto Seguro”, temos uma boa amostra do que ele deve ter ouvido na infância. Interpretação cheia de sentimento, pesada.

Quando entra “Patuguibê laô”, samba-groove-futebol-soul-macumba, vem a celebração. Tudo que mexa com os quadris, “pois hoje é dois de fevereiro / para felicidade minha”. “Madinina”, bem, essa é só perfeita. “Tira teima” segue a linha dos sambas de João Bosco.  Por fim, há “Matinic moins” e “Orange lady”, para começar a acender as luzes do salão.

Base do Baú – “Quem é Quem” (1973)

14 Maio
João Donato de Oliveira Neto

João Donato de Oliveira Neto

João Donato nasceu em Rio Branco no Acre, e é certamente o mais baiano dos não baianos. Em 1973 lançou “Quem é Quem”, que muitos nem consideram seu melhor trabalho, a maioria prefere citar o lado psicodélico dele com “Bad Donato”, de 70, que é fácil, um disco alucinante (para não falar alucinógeno).

O grande mérito desse disco está na construção das canções, ele assumia os vocais pela primeira vez depois de se consagrar como um dos maiores instrumentistas do Brasil. O cuidado em casar a melodia do seu piano com sua voz frágil foi certeira.

Abre com “Chorou, Chorou”, o piano fender dá a base para cantar cheio de malemolência, que continua em “Terremoto”, as duas são de autoria dele com Paulo César Pinheiro. Na seqüência um dos mais belos arranjos da bossa nova “Amazonas (Keep Talking)” é uma instrumental que fala. “Fim De Sonho” vem com um Donato cheio de lamentações e que termina dizendo, “você vem e diz que já não quer / outro dia tão escuro agora como agente vê”, um verdadeiro esperançoso do amor.

“A Rã” tem sua versão mais graciosa, e que só mais tarde viria a ganhar letra de Caetano Veloso. “Ahiê” segue a linha bossa-jazz e tem o final com João mando seu recado para os amigos, conversa de beira de praia. “Cala Boca Menino” é groove até o ultimo fio de cabelo, suingue baiano de autoria de Dorival Caymmi, pra dançar e transar. Em “Nãna Das Águas” João segue no ritmo dançante. Donato tira o pé do acelerador, mas não da qualidade instrumental em “Me Deixa”.

“Até Quem Sabe?”, é simples e nem precisava ser mais do que isso. “Mentiras” ele canta Nana Caymmi, e termina com “Cadê Jodel?” parceria de João Donato com outro mestre samurai das melodias perfeitas, Marcos Valle. Paz!!!

Base do Baú – “Di Melo” (1975)

23 Abr
Roberto Melo

Roberto Melo

Não é de hoje que Pernambuco colabora com a qualidade da música brasileira. Em 1975, Di Melo lançava seu disco mostrando para o Brasil que o swing não ficava só no eixo Rio – São Paulo. Seguidor de Tim Maia e contemporâneo de Cassiano e Hyldon, só não ganhou mais destaque porque naquela época só a música de protesto tinha espaço. Curioso como hoje música de protesto é considerada música de bandido, mas isso é outro assunto.

Di Melo” se tornou um álbum conhecido graças aos DJ que ficavam com os dedos grossos nos sebos em busca de raridade. Paulão, Niggas (que escreveu sobre o disco aqui) e Samuca foram alguns desses arqueólogos do vinil.

O disco abre pegando pesado na balada. “Kilariô” vem cheia de balanço e com baixo e metais destruindo tudo. “A Vida em Seus Métodos diz Calma” é um de seus hits, swing com uma letra que mistura humor e critica ao desespero. Aliás a critica existia muito na música de Di Melo, mas não ficava só no discurso “caminhando e cantando”. Falava dos problemas do ser humano comum. Mas ele não era filho de sociólogo e não fazia parte da máfia do dendê.

De volta ao chiado do vinil, “Aceito tudo” é o desabafo de quem chega na cidade grande, isso nos anos 70. Em um verdadeiro desabafo, o mestre diz:

“Ganho um solo ganho um colo só não quero ganhar cruz da escravidão

Do outro lado de tudo a matemática do absurdo

Não me troco por ninguém tenho honestidade não sou cabeçudo

Tenho a meia tenho a ceia e de melhor a alegria

Cresci sem nada e sem conhecer com muito trabalho aprendi a ler

Não conheci o meu avô nem o que foi nem onde andou

Só sei que a vida ou o mundo foi quem me desafiou”

Sob a influencia do tango vem “Conformópolis”, com uma letra poderosa de Waldir Wanderley da Fonseca. Em “Má-lida”, Di Melo diminui o ritmo mas não a lamentação. A faixa lembra muito o que seus conterrâneos faziam naquela época.”Sementes” é a mais tango de todas.

Entra “Pernalonga”, e o pernambucano volta ao groove – ainda bem. “Minha estrela” lembra um pouco a levada de “Kilariô”. “Se o mundo acabasse em mel”: só pelo titulo já vale. De quebra é uma canção repleta de frases fortes, como “Entrou em choque publicitário” – nada mais atual. “Alma gêmea” é aquele momento de lamentação e solidão, assim como o sambinha “João”. O disco fecha com “Indecisão”, “Tudo isso é pra quem pode/ nunca foi, nunca é pra quem quer/ tem gente que nasce pra ter/ e tem gente que vem pra cantar”, diz a letra.

Di Melo ainda está na ativa, assinando com o nome Roberto Melo.

E ninguém faz nada.

Base do Baú – “Jóia, Jóia” (1971)

16 Abr
Wilson Simonal de Castro

Wilson Simonal de Castro

Quando chegou o e-mail sobre o documentário “Simonal – Ninguém Sabe O Duro Que Dei“, pensei em um disco do Simonal para o “Base do Baú”. Considero “Se Dependesse de Mim” do ano seguinte uma obra perfeita. A serie “Alegria, Alegria” que durou de 67 a 69 é o malandro em estado bruto, pilantragem a serviço da boa música.

Jóia, Jóia” é um disco onde Wilson Simonal circula com maestria entre a bossa nova do começo da sua carreira e com o estilo “pilantra” que lhe estava rendendo bons frutos.

O disco abre dançando com “De Noite na Cama”. “Gemedeira” é só a comprovação de que ele era o maior cantor do Brasil, é um baião-jazz com arranjo de metais perfeito. “Impossível Acreditar Que Perdi Você” de Márcio Greyck  e Cobel, mostra que Simonal poderia cantar qualquer coisa em qualquer língua ou estilo musical, vem “Tristeza” e o samba assina em baixo.

A bossa nova rasgada “Tudo É Magnífico” é a prova de que ele era nosso equivalente a Isaac Hayes, Al Green, Marvin Gaye e outros monstros da música. A ponte musical de Simonal vai para o baião na faixa seguinte “Lampião Em Prosas e Versos”. “Garoa Diferente” do grande Tião Motorista abre caminho para uma das melhores sequências de três musicas da história, fora que a frase “a injeva dessa gente me persegue noite e dia”, ganha outro sentido hoje, sabendo um pouco mais da história.

“Você Abusou” de Antônio Carlos e Jocafi já é perfeita no original, imagina com ele. “Na Galha do Cajueiro”, bem, essa também é do Tião Motorista,e resume quase que tudo que foi Wilson Simonal. Pra terminar com chave de ouro “Fotografia” de Tom Jobim. A genealidade de Jobim, na voz negra dele, uma combinação marcante.

E isso tudo é só um pouco da obra de Wilson Simonal.

Base Baú – Pérola Negra (1973)

9 Abr
Luiz Carlos dos Santos

Luiz Carlos dos Santos

Luiz Melodia tem uma das vozes mais lindas do samba. Suingada e cheia de malemolência, já mostrou todo talento logo no primeiro disco, “Pérola Negra“.

“Estácio, Eu e Você” é a mais bela homenagem à comunidade de Estácio de Sá. “Vale Quanto Pesa”, além de uma boa composição, traz Melodia destruindo na interpretação (vale observar que nos anos 70 os sons latinos influenciavam e muito).

“Estácio, Holly Estácio”, bem, a letra diz tudo:

“Se alguém quer matar-me de amor

Que me mate no Estácio

Bem no compasso, bem junto ao passo

Do passista da escola de samba

Do Largo do Estácio

O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço

Trago não traço, faço não caço

O amor da morena maldita do Largo do Estácio

Fico manso, amanso a dor

Holliday é um dia de paz

Solto o ódio, mato o amor

Holliday eu já não penso mais”

Uma curiosidade sobre “Pra Aquietar”. Hoje os fãs acham linda a mistura roqueira/tropicalista dessa faixa. Na época, diziam que o cantor não fazia samba. O tempo é justo. “Pérola Negra” tem um dos mais belos arranjos samba-jazz daquela década. Era o que Melodia estava tentando fazer, abrir as fronteiras do samba que descia o morro, unindo-o com outros estilos.

“Magrelinha” é rock “cor de sangue” com algo na cabeça. “Farrapo Humano” é psicodélico para amargar a garganta. Em “Objeto”, ele mostra a ligação entre o samba e o blues. “Forró de Janeiro” só comprova que o “Pérola Negra” Melodia sabe cantar até música de ninar.

Hoje o dono da voz só colhe os lucros de sua carreira, com especiais mornos com a assinatura da MTV. O samba está cada vez mais pop, tornou-se uma fábrica de ganhar dinheiro. Basta ter uma voz educada e uma beleza exterior que o resto o mercado consome. Se alguém merece fazer sucesso com essa mistura de gêneros, é Luiz Melodia.

Base do Baú – Bicho (1977)

2 Abr
Caetano Emanuel Viana Teles Veloso

Caetano Emanuel Viana Teles Veloso

Poucos consideram “Bicho” de 1977 um disco importante na carreira de Caetano Veloso. Na maioria dos casos o discurso é sempre o mesmo, “Transa” e “Araçá Azul”, nem vou questionar porque são dois trabalhos com seus valores, que sabemos que são muitos.

“Odara” abre com Caetano fazendo um manifesto a cultura negra, celebrando o amor e a cor.  Tem a versão com a Banda Black Rio que é mais negra ainda. Prova maior que essa canção tem negritude foi quando Rappin Hood pegou a base e fez sua versão. Caetano que não é bobo nem nada participou.

Em “Gente” o groove continua, não é uma letra inspirada, mas Caetano estava entrando numa onda concretista e claro, a construção musical seguia o mesmo caminho. Talvez mais tarde ele acerte em cheio com “Língua“.

“Olha o Menino” é um Jorge Ben em sua melhor forma. Velô jamais deixaria passar a oportunidade, conhece de música.

Em “Um Índio”, sobrecarrega nas influências, enche a letra de personalidades, mas a poesia de Caetano é assim, às vezes exagera na informação.

“Tigresa” e “Leãozinho”, bem, todo mundo conhece. Trilha de novela.

Esse é um disco de Caetano que começa bem, mas se perde no pop da época.

Mesmo assim, vale o balanço do lado A.