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O Groove de 2009

31 Dez

Arte: Edson Lopes

Chega ao fim a primeira década dos anos 2000. Vou tentar fazer primeiro um pequeno balanço do que foi 2009. Claro que vai faltar muita coisa, mas lembrar algumas já ajuda. Teve Geisy Arruda (do outro Arruda nem vale lembrar) mandando muito bem no seu vestidinho vermelho. Deu trabalho, mas não mais do que as chuvas que ferraram bem Sampa, a terra da garoa virou um pantanal de água.

Então vamos de groove:

Michael Jackson

Nenhuma notícia chamou tanta atenção quanto a morte de Michael Jackson. O Rei do Pop fez sua passagem e passa a ter o status de divindade. Ficaram sua música e sua magia, que realmente é o que importa. Na minha opinião, ainda não nasceu seu substituto, mas logo aparece.

Os Brazucas

Ano muito bom para o rap nacional, que deixou a postura sisuda de lado e resolveu mostrar sua nova cara. Não tem cabimento hoje, no Brasil, fazer música pop (afinal, hoje, o rap é o pop) achando que tem de ficar restrito a meia dúzia de pessoas. Emicida começou toda essa história com o lançamento de sua mixtape. Chegou a ser indicado no sonolento VMB 09, apareceu até nos “jornalões”. Rompeu as primeiras fronteiras, falou com os jornalistas de forma clara e sem a ideia fixa de que os profissionais da área só escrevem besteiras. Até escrevem, mas não são todos, e se ninguém falar, como transmitir sua ideia? Até universitário que não consegue batalhar por mais nada, além da carteirinha de estudante, sabe disso. O objetivo tem que ser maior.

O rap nacional começou a falar mais e a aparecer mais. Mano Brown foi capa da Rolling Stone. A matéria – uma das melhores do ano – mostra a nova fase em que o cantor se encontra, tentando mudar sua imagem. “Não posso ser refém de nada, nem do rap. Aquele Mano Brown virou sistema viciado”, disse Pedro Paulo ao jornalista André Caramante. Ainda nos Racionais, KL Jay foi o lado musical que mais se exercitou. Nos toca-discos ele teve um encontro com DJ Marky e outro com o Patife, as ligações começam a ser feitas, espero que venha mais coisa boa pela frente. Sobre o novo disco dos Racionais, quando vazaram umas músicas do projeto com a Banda Black Rio, todo mundo ficou empolgado, mas não era nada do grupo. Falam que o disco está previsto para o meio do ano, mas vamos esperar com calma.

Outra mixtape que deixou aparente os rumos a serem percorridos pelo rap veio das mãos de Flora Matos, em parceria com o Stereodubs. Tão importante quanto a do Emicida, mas com a vantagem de mostrar novos caminhos musicais. De quebra, o Brasil descobre uma nova (e boa) cantora e compositora de rap, ou melhor, de música brasileira. Já o grupo Pentágono foi destaque com dois belos clipes, dirigidos por Pedro Gomes, responsável também pelo documentário “Freestyle: Um Estilo de Vida”. Destaque também para o diretor Fred Ouro Preto, que foi indicado pelo seu clipe de “Triunfo” e fez um bom trabalho com o primeiro vídeo do Kamau (Só – Remix), que, por sua vez, teve um fim de ano agitado com música inédita e estréia no universo dos clipes – até então ele aparecia somente em vídeos de skate. Acaba despertando a curiosidade pelo que vem por aí.

Há, ainda, a música “Elegância”, de Rincón Sapiência. Tocou em toda festa boa que rolou nesse 2009 e fez muita gente dançar. O Só Pedrada Musical acabou, mas voltou com força total, e viva a boa música sob a tutela de quem conhece, Daniel Tamenpi. Outro guerreiro do rap, Alessandro Buzo fez na raça e na coragem um filme sobre o assunto, “Profissão MC”, com Criolo Doido mandando muito bem no papel principal. E do Rio de Janeiro veio o EP do Akira Presidente, rapper que é uma das boas promessas para esse ano que chega (o MC colocará seu álbum oficial nas ruas no primeiro semestre), assim como Funkero. Dois bons nomes vindo pra selva via ponte área, aaahh, meu Rio de Janeiro!

Aliás, da cidade maravilhosa veio um dos melhores documentários do ano “Dub Echoes”, do guerrilheiro Bruno Natal.

Continuando, o veterano João Bosco lançou um belo disco voltando com a parceria de Aldir Blanc. Agora, o melhor foi mesmo João Brasil, que colocou na praça uma bela amostra de seu trabalho, mas foi pra Inglaterra. A cantora Céu apresentou um disco melhor que o de estréia, e Lucas Santtana mostrou por que é um dos artistas mais inteligentes dessa geração com “Sem Nostalgia”. Teve novo (e sempre bom) disco do Cidadão Instigado, Fernando Catatau é foda.

Wado também mandou muito bem em seu “Atlântico Negro”. E teve até meu “amigo” Benito Di Paula, sem falar no DJ Dolores (responsável por um dos melhores discos esse ano, mas que, na verdade, é de 2008). Enfim, Recife é demais. Tem algo na fumaça de lá, decididamente.

Os Gringos

Se Jay-Z é o “patrão” da atualidade, Mos Def é o operário revoltado da indústria fonográfica. Os discos que os dois lançaram mostram o rap norte-americano dividido claramente entre alguém que faz o pop certinho para agradar gregos e troianos e outro produzindo um discurso político, pesado e sem papas na língua. Mos Def é hoje um dos maiores artistas da atualidade, “o homi” mais rock’n’roll da música. Tão importante para a música negra quanto Marvin Gaye.

Na produção não me lembro (nesse ano) de alguém que fez tantos trabalhos e tão bons quanto J.Period. O produtor e DJ foi responsável pelas melhores mixtapes e pelos melhores projetos, destaque para sua parceria com K’naan (projeto The Messengers) e com a cantora “Power África” Nneka (mixtape “The Madness – Onye-Ala”). Essa chegou bem no

finalzinho do ano e valeu a pena.

Bob Dylan lançou um disco de Natal, que nem é nada demais, mas é Bob Dylan, e Dylan é Deus. 50 anos de Keroauc, salve a beat generation!.

Kanye West chamou a atenção subindo no palco do VMA e questionando a premiação de Taylor Smift. Convenhamos que foi a única atitude “roquinroll” desse ano de que me lembro.

Talib Kweli foi outro que não parou em 2009, seu melhor projeto foi o Idle Warship. Fodaça a parceria entre o MC e as belas Res e Graph Nobel. Major Lazer (aka Diplo) fez um dos melhores discos dessa safra, vai do funk carioca ao dubstep rapidinho. O GL comemorou o Fela Kuti Day em grande estilo, merecidamente.

Até tentei ouvir mais coisas, como Animal Collective e Dirty Project, mas todo mundo vai falar tanto desses discos que deixei pra lá. Os fãs que me perdoem, mas não achei nada demais. Aliás, o rock decididamente morreu, pelo menos nesse formato que conhecemos. Essas bandas, por exemplo, são tão certinhas que dão até sono. Mas como diria

meu pai, gosto não se discute, se lamenta.

As mulheres deram as cartas no pop, ainda bem, pois Beyoncé, Lady Gaga e Taylor Smift apareceram em todas as premiações. Rihanna lançou seu disco de transição, Lily Allen veio no Brasil, arrebentou no show e ainda lançou um belo disco. Faltou só o disco novo da Amy Winehouse.

Shows

Não vi tantos shows assim, mas dos que fui e fotografei, o Radiohead, disparado, deu um show perfeito. Além de Mos Def. É absurdo como o cara é cuidadoso mesmo na simplicidade de seu trabalho. Mesmo grau de importância nesse ano. Houve outras boas performances, Flora Matos Vs Stereodubs, Instituto e convidados, Sombra e Banda Projeto Nave, e por aí vai. O Festival Dialeto foi um evento que chamou a atenção por reunir os principais nomes da atualidade do rap. Organizando, pode-se desorganizar, já dizia o profeta. Pra terminar, a notícia de que a dona da pensão, ahh, deliciosa, Beyoncé vem para o Brasil.

Que venha 2010.

Feliz ano novo com muito groove a todos que apareceram por aqui.

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Fela Kuti’s Day

15 Out

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Fela Anikulapo Ransome Kuti estaria completando 71 anos hoje, sua importância é quase que religiosa, foi o pensador de sua geração. Tornou-se um ídolo do terceiro mundo brigando por justiça. Um bom caminho para se entender sua arte pode ser apreciada sem nenhuma moderação no excelente “Só Pedrada Musical” do Daniel Tamenpi.

Um dos seguidores da filosofia “Kutiana”, Rodrigo Brandão do Mamelo Sound System falou sobre a influência e importância de Anikulapo na sua obra e no mundo.

“Fela Kuti, um dos maiores ícones da música negra mundial, afro-futuristra de primeira, criou um gênero musical, ao lado de sua genial banda Afrika 70, e em especial do baterista Tony Allen. Verdadeiro rei do ritmo, ele abençoou o Mamelo no nosso álbum Velha-Guarda 22, e estar em conexão direta com tamanha majestade musical foi uma daquelas emoções que não cabem em palavras.  Mas a influência e inspiração exercida por gente como o Anikulapo transcende até mesmo a música, pois toca em quesitos como a atitude diante da opressão, da corrupção e um inconformismo, uma rebeldia muito reais, urgentes e profundos. A celebração de um dia só dele explica muito sobre o assunto, e a dimensão da importância desse band leader, cantor, compositor, saxofonista e tecladista aumenta ainda mais se pensarmos que se trata de um artista vindo do Terceiro Mundo, cujas músicas são enormes, portanto sua difusão radiofônica foi minúscula. Longevidade pouca é bobagem”.

Brandão além de conhecer do assunto, sabe levar a influência das pregações de Fela Kuti na sua música, o que torna o Mamelo em um grupo diferenciado do rap nacional.

Vida longa ao Rei nigeriano Anikulapo.

Radio 420

4 Out

Radio 0410

Radio 420 Beta 04102009

(tag tá legal)

The Dynamics – Miss You

Speedometer – Soul Grooving

Beastie Boys – Sure Shot (instrumental)

Chali 2na (Don Coleon) – Whose 2 Blame

Funkero (Pai Lua) – Selva Urbana

FAROFF – Hollaback Connection

Play parceiro!

Anti-Pop Consortium – Fluorescent Black

12 Set

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Incrível como o APC cria sua musica em função da eletrônica.  Pra variar, o lançamento está no Só Pedrada Musical. Ouvi e já sabia que se tratava de uma musica refinada e requintada. Musica para uma viagem adocicada.

Existe toda uma festa para se lançar um disco do Jay-Z, por exemplo, mas ninguém fala de um lançamento como esse. Aí que está o motivo, isso não é nenhum problema, pois lá fora o grande artista sabe incentivar essa criação pra buscar futuros sucessos.

O entretenimento lá fora trabalha de forma conjunta, para sustentar a criação da arte. Aqui se proíbe o Twitter e o artista briga pra não perder seu espaço, e não por uma causa.

Chali 2na – Fish Outta Water

10 Jul

Charlie Stewart

Charlie Stewart

Como é bom ver a lista de discos do ano se formar, e o nível está ficando cada vez melhor. Só essa semana tem o disco da Céu e esse petardo que vem da família Jurassic 5. O dono de uma das vozes mais marcantes do grupo, o gigante Chali 2na, acaba de lançar seu mais novo disco “Fish Outta Water”. Como de costume o pessoal do blog Só Pedrada Musical falou muito bem aqui sobre o lançamento.

Chali 2na (ou Charlie Stewart) é um dos rapper que mais se envolve com bons projetos, e todos de altíssima qualidade. Esse ano, por exemplo, ele está em uma das melhores faixas do ano, “America” junto com Mos Def no disco de K’naan.

O peso da voz de Charlie Stewart é certamente um dos mais marcantes do gênero. Ele canta não só o rap de forma tradicional, seu flow tem uma pegada reggae o que acaba colocando uma característica marcante nas canções.

“Get Focused” abre o disco dançando, mas é só um aperitivo para “International” com participação de Bennie Man aí ele começa a brincar. “Crazy” tem Rick James, cruel. No Brasil temos o equivalente de Sombra com sua forma de cantar toda peculiar. O SNJ também teve um peso no rap nacional do tamanho do Jurassic 5. Não é verdade?

Bem, isso a história vai contar. Por aqui é bom saber que o disco do Chali 2Na é foda, paulada.

Doom – Born Like This

27 Mar
Daniel Dumile

Daniel Dumile

Esse ano o rap promete bons lançamento, tem Jay-Z gravando com produção de Kanye West, Mos Def com disco novo em junho, Emicida lançando mixtape, Max BO gravando. Enfim, a lista é grande.

Agora, para o titulo de ‘melhor disco do ano’ um chegou como forte candidato, Doom (que antes assinava MF Doom) com “Born Like This”. O mascarado do rap fez um trabalho experimental, cheio de bases diferenciadas e ousadas principalmente. Soube trabalhar bem com a eletrônica, lembra um pouco até a experiência que Parteum fez em sua mixtape. O detalhe é que Fabio Luiz lançou antes o seu trabalho, épocas de globalização.

Nesse novo trabalho Doom (ou Daniel Dumile) fugiu totalmente do convencional, e ouvindo seu CD, percebe-se claramente porque chamou Thom Yorke para remixar sua música. Existe uma linha de raciocínio lógico entre os dois.

Confesso que estava com receio de ouvir, mas depois que Mos Def rasgou o verbo para Doom, melhor conferir. A produção está em outro nível, não vai vender tanto, não tem refrões fáceis (quando tem), mas o propósito é atingir outro publico. Aqueles que estão para oferecer uma nova proposta.

Pode passar despercebido na maioria dos lugares, mas tem gente que tem gente como o “Só Pedrada Musical” que sabe o quanto vale a pena a paulada.

O Boom Bap explica melhor esse disco bem aqui.

Aprecie sem nenhuma moderação.